Houve um tempo, não muito distante, onde as caixas automáticas eram a exceção num mercado dominado por transmissões manuais. O triunfo da eletrificação ditou o fim da era dos três pedais e da manete. Restam poucos modelos no mercado com esta configuração. Tão poucos que acabam esquecidos naquelas versões base que servem para pouco mais do que justificar os preços “desde…”.Uma tendência comprovada, ainda que inadvertidamente, por este trabalho. A renovação do Kia Stonic, sempre com motor a gasolina livre de eletrificações, justificava uma abordagem às versões base do Citroën C3 e Fiat Grande Panda, também elas com bloco a gasolina à moda antiga associado a caixa manual de seis velocidades. A realidade das viaturas disponíveis não demorou a corromper a base teórica do comparativo.Percursor do trabalho, o Kia Stonic tem dois níveis de equipamento, Drive e Tech, ambos com caixa manual de seis velocidades. O mais completo (Tech) tem como opção a caixa de dupla embraiagem e sete velocidades presente no Kia Stonic das imagens.

Imagem do artigo

O Fiat Grande Panda vai mais longe, apresentando-se com a motorização híbrida de 110 cv. O bloco 1.2 de três cilindros é o mesmo da versão não eletrificada de 100 cv. A diferença de potência é o resultado da combinação dos 100 cv do motor térmico com os 29 cv da máquina elétrica, alimentada por uma bateria de 0,89 kWh (0,83 kWh úteis).Para distinguir as duas versões é preciso observar o interior. Se tiver o seletor da caixa manual de seis velocidades e pedal de embraiagem é o motor de 100 cv. Se tiver o comando das transmissões automáticas da Stellantis instalado na consola central é o híbrido com caixa de dupla embraiagem e seis velocidades.Perante este cenário, o único modelo que se manteve fiel ao propósito do trabalho foi o Citroën C3. Partilha o motor 1.2 de 100 cv e a plataforma CMP da Stellantis com o Fiat Grande Panda, mas oferece uma condução e soluções de interior distintas.

Primeiro as contas

Com os comprimentos a tocarem ou ultrapassarem os quatro metros, no caso do Kia Stonic, há muito que os utilitários deixaram de se medir aos palmos. Mas continuam a medir-se em euros. O posicionamento acessível da Citroën faz dos 16 440 € do C3 Turbo 100 cv You um valor difícil de igualar.Partilhando grande parte da mecânica, o Fiat Grande Panda Pop (17 848 €) não fica muito distante do primo francês. O mesmo não se pode dizer dos 21 490 € do Kia Stonic Drive 1.0 T-GDI (valor calculado depois de aplicar o desconto de 2500 € da campanha de lançamento).Considerando o equipamento das versões base, o Kia Stonic parte com uma ligeira vantagem. É o único a oferecer dois ecrãs. Um de 11,1 polegadas para o painel de instrumentos e outro de 12,3 polegadas para o entretenimento. As versões de acesso dos primos da Stellantis limitam os mostradores ao painel de instrumentos.

A Citroën segue uma via minimalista, com um ecrã longo e estreito, ao estilo head-up display, muito bem integrado na base do para-brisas. Já a Fiat opta por uma solução convencional, com um ecrã TFT a cores de dez polegadas. Os dois modelos reservam um suporte para telemóvel como fonte de entretenimento.No entanto, basta subir um nível de equipamento para que o Citroën C3 Plus (18 950 €) e o Fiat Grande Panda Icon (19 348 €) desequilibrem a definitivamente a balança. Continuam a custar menos que o Kia Stonic Tech (23 490 € em campanha) e passam a incluir um ecrã de 10,25 polegadas com Apple CarPlay e Android Auto sem cabos.Uma vantagem importante face ao Kia, que oferece a integração com smartphones desde a versão base, mas sempre dependente dos cabos. Apresentadas as diferenças mais visíveis, cabe ao condutor decidir se a oferta de série de sistemas como os sensores de estacionamento, câmara traseira, jantes em liga leve ou quatro vidros elétricos, justificam a diferença de preço.

Cor e movimento

Nas imagens que ilustram estas páginas encontram-se as versões mais bem equipadas dos três modelos. A caixa automática opcional (2000 €) torna o Kia Stonic Tech ainda mais dispendioso.Mesmo com a motorização híbrida, que acrescenta 2000 € preço do motor a gasolina simples, o Fiat Grande Panda La Prima (24 348 €) fica abaixo do modelo coreano. Com um preço de 20 650 €, o Citroën C3 Max continua a ser o mais amigo do saldo bancário.Evitando entrar em grandes considerações sobre temas subjetivos como o design, não podemos deixar de notar que o Kia Stonic tem uma aparência geral mais conservadora. Não é um defeito. É uma opção, seguramente do agrado daqueles que não se revêm na explosão de cor do Fiat Grande Panda.

O Citroën C3 ocupa uma posição intermédia, muito marcada pela utilização de materiais menos vistosos, em linha com o posicionamento de preço.Estendendo o comprimento até aos 4,17 metros, o Kia Stonic acrescenta quase um palmo ao Citroën C3 (4,02 m) e ao Fiat Grande Panda (4 m). Seria de esperar um interior espaçoso e uma bagageira superior.No entanto, os 2,58 m de distância entre eixos adicionam apenas 4 cm aos modelos baseados na plataforma CMP da Stellantis. Na teoria, o espaço para as pernas nos lugares traseiros é igual ao do Citroën. Na prática, depois de ajustar a posição de condução sobra ligeiramente mais espaço no modelo francês. O Fiat é um pouco mais apertado.

Velha guarda

Em nenhum dos habitáculos há piso plano ou espaço para sentar um adulto no lugar do meio. Os modelos europeus oferecem um par de fichas USB-C nos lugares posteriores contra apenas uma no coreano.Mais atrás, as bagageiras também não são iguais. O Fiat Grande Panda toma a dianteira com 412 litros de capacidade, seguido pelos 352 l do Kia Stonic. O Citroën C3 não vai além dos 310 litros.Todas as costas da fila traseira rebatem 60:40, mas só o C3 e o Grande Panda iluminam a mala. Para compensar, o Stonic tem uma calha nas costas dos bancos para arrumar a chapeleira.

Aparentemente não há como evitar os volantes ovais com dois braços. Nada contra quando, como é caso, a pega é boa e os comandos funcionais. Nos três casos, a posição de condução é um pouco mais alta que a de uma berlina e mais baixa que num SUV. Boa para as aventuras urbanas.Comandos separados para a climatização facilitam a utilização durante a condução. Nas consolas centrais, os comandos das caixas de velocidades não podiam ser mais diferentes.O Citroën representa a velha guarda, com uma manete para a caixa e outra para o travão de estacionamento. O Kia recorre ao seletor tradicional das caixas automáticas, enquanto o Fiat utiliza o botão de empurrar das transmissões automáticas do universo Stellantis.

Trio de explosão

rês motores de três cilindros a gasolina, com caixa manual de seis velocidades e 100 cv. Do plano original sobra apenas o Citroën C3. A ajuda do motor elétrico torna a condução do Fiat Grande Panda Híbrido mais fluída. Percorre a caixa de dupla embraiagem e seis velocidades com ligeireza, sendo o mais rápido a acelerar e ultrapassar. Os dez segundos da prova de arranque até aos 100 km são reveladores do temperamento tranquilo do Fiat.Entrar para o Citroën C3 é uma viagem ao passado recente. A um tempo em que a chave era para rodar na ignição e o arranque o resultado da ação combinada do pé esquerdo na embraiagem, a mão direita na manete da caixa e do pé direito no acelerador.Não sendo pesada ou mal escalonada, a caixa manual é mais trabalhosa de utilizar em cidade do que as soluções automáticas. Para poupar nas passagens de segunda para terceira e vice-versa puxa-se pela segunda e o bloco de três cilindros torna-se barulhento. Em estrada mostra-se mais equilibrado, sem conseguir acompanhar o refinamento dos rivais.

Com caixa de dupla embraiagem e sete velocidades e 172 Nm de binário, contra os 205 Nm dos blocos 1.2, o motor do Kia Stonic não é particularmente desportivo. Precisa de 12,1 segundos para chegar aos 100 km/h e obriga a calcular bem as ultrapassagens. Especialmente quando carregado, o que é uma realidade comum aos três modelos em confronto.Para compensar, é o mais bem isolado do trio, oferecendo um nível superior de refinamento, que se agradece nas deslocações mais longas. Em cidade, apesar de ser o mais comprido, tem o diâmetro de viragem mais baixo, facilitando as manobras em espaços apertados.O Fiat Grande Panda é aquele que precisa de mais espaço para manobrar. Ainda na cidade, os 197 mm de altura livre solo transformam o Citroën C3 no campeão das subidas de passeios. O Kia Stonic, com 165 mm, é o que precisa de ter mais cuidado.

Equilíbrio desequilibrado

No cenário idealizado para este trabalho, os consumos deviam ser equilibrados. O Citroën C3 Turbo 100 cv tomava a dianteira, com uma média oficial de 5,6 l/100 km, seguindo ex aequo pelo Kia Stonic 1.0 T-GDi e Fiat Grande Panda, com 5,7 l/100 km.Teoricamente a caixa automática não devia afetar os consumos, no entanto, o Kia não conseguiu baixar dos 7,4 l/100 km. O Fiat Grande Panda Híbrido também não fica muito bem na fotografia, com a média homologada de 5,1 l/100 km a aumentar para os 7 l/100 km. O Citroën C3 confirma a eficiência, com a média de 6,5 l/100 km a revelar um menor desvio face aos valores oficiais.

Imagem do artigo

PREÇO  16 440€ (20 650€ versão ensaiada)

Imagem do artigo

MOTOR Gasolina, 3 cil, 1199 ccPOTÊNCIA 74 kW (101 CV)BINÁRIO 205 NMTRANSMISSÃO Dianteira, Man, 6 vel.COMP./LARG./ALT. 4,02/1,76/1,58 MDISTÂNCIA ENTRE-EIXOS 2,54 MMALA 310 LACEL 0 – 100 KM 10,6 SVEL. MAX 160 KM/HCONSUMO WLTP 5,6 (6,5*) l/100 kmEMISSÕES 126 G/KMIUC 111,46 €* Medições Turbo

PREÇO  23 348€ (24 328€ versão ensaiada)

Imagem do artigo

MOTOR Gasolina, 3 cil. 1199 cc + elétricoPOTÊNCIA 81 kW (110 CV)BINÁRIO 205 NMTRANSMISSÃO Dianteira, Auto, 6 vel.COMP./LARG./ALT. 4,00/1,76/1,58 MDISTÂNCIA ENTRE-EIXOS 2,54 MMALA 310 LACEL 0 – 100 KM 10,6 SVEL. MAX 160 KM/HCONSUMO WLTP 5,6 (6,5*) kWh/100 kmEMISSÕES 117 G/KMIUC 111,46 €* Medições Turbo

PREÇO  21 490€ (25 490€ – versão ensaiada)

Imagem do artigo

MOTOR Gasolina, 3 cil. 998 ccPOTÊNCIA 74 kW (100 CV)BINÁRIO 172 NMTRANSMISSÃO Dianteira, Auto, 6 vel.COMP./LARG./ALT. 4,17/1,76/1,52 MDISTÂNCIA ENTRE-EIXOS 2,58 MMALA 352 – 1155 LACEL 0 – 100 KM 12,1SVEL. MAX 179 KM/HCONSUMO WLTP 5,7  (7,4*) l/100 kmEMISSÕES 131 G/KMIUC 111,46 €* Medições Turbo